segunda-feira, 16 de julho de 2012

Só por uma semana







Sabe o que eu mais queria na vida? Queria, durante uma semana, só ler notícias boas. Nem precisava que elas fossem tão boas; bastava que não houvesse nenhuma ruim. 




As manchetes dos jornais não precisariam falar de coisas muito importantes. Poderiam contar que neste ano estão crescendo flores, misteriosamente, em todos os canteiros de todos os prédios, e que até as vielas das favelas estão floridas e coloridas.

Além disso, por um capricho da natureza, elas estariam mais cheirosas do que nunca, e que esse fenômeno está fazendo com que as pessoas estejam mais gentis, mais delicadas, mais felizes. E os traficantes, no lugar de traficar, levariam grandes buquês para suas namoradas, que retribuiriam com beijos e palavras amorosas.

Os jornais diriam que nossos deputados e senadores se renderam à beleza que tomou conta do país, e durante esta semana esqueceriam de seus interesses particulares e só votariam projetos a favor do bem-estar geral. E isso lhes faria tanto bem que eles sairiam do Congresso a pé, falando com todas as pessoas com quem cruzassem na rua, sorrindo, simpáticos, como faziam quando estavam em campanha. Eles também colheriam e levariam flores para suas mulheres, com um carinho que elas já haviam esquecido que existia.

As rádios só tocariam canções de amor, e as televisões mostrariam praias, montanhas, lugares lindos onde se poderia passar uns dias só sendo feliz, mais nada.


Algumas pessoas não seriam citadas no noticiário desta semana, e seria proibido falar de qualquer partido político, já que eles só nos trazem desgosto. Responda rápido: algum deles lhe trouxe alguma alegria nos últimos tempos?

Os assaltantes dariam uma trégua e iriam à praia dar um mergulho para esfriar a cabeça, e quando voltassem para casa encontrariam suas mulheres felizes, preparando o almoço, e a casa cheirando a um refogadinho feito na hora. E os dois sorririam um para o outro e talvez até se amassem e deixassem a panela queimar, aliás por justíssima causa.

As crianças nas praças se enfeitariam com flores nos cabelos e não dariam um único grito; o único ruído que fariam seria o de risos e gargalhadas, tão felizes estariam. Pássaros voariam sobre nossas cabeças, e borboletas de todas as cores dançariam, naquela coreografia louca que só elas entendem.

Nessa semana, só uma coisa seria proibida: tirar fotos com o celular.

Para que as pessoas soubessem que os momentos de verdadeira felicidade são guardados dentro do peito, deles não se esquece, e para isso não precisamos de nenhuma maquininha.

Barraquinhas ofereceriam água de coco gelada e pão de queijo fumegando, de graça, como se estivéssemos numa quermesse; ninguém teria a menor preocupação com coisa alguma, ninguém falaria de doenças nem de tragédias, até porque ninguém estaria doente e nenhuma tragédia teria acontecido.

Teríamos a ilusão, durante uma semana, de que a vida seria assim, para sempre; e à noite, quando aparecessem os primeiros vaga-lumes, a certeza de que todos nossos sonhos iriam se realizar.

Aliás, uma semana seria demais; bastaria que fosse assim por um dia.

Mas talvez eu esteja querendo demais.
(texto de Danuza Leão, Folha de SP)

domingo, 15 de julho de 2012

Se se morre de amor


Se se morre de amor! — Não, não se morre,
Quando é fascinação que nos surpreende
De ruidoso sarau entre os festejos;
Quando luzes, calor, orquestra e flores
Assomos de prazer nos raiam n’alma,
Que embelezada e solta em tal ambiente
No que ouve, e no que vê prazer alcança!

Simpáticas feições, cintura breve,
Graciosa postura, porte airoso,
Uma fita, uma flor entre os cabelos,
Um quê mal definido, acaso podem
Num engano d’amor arrebatar-nos.
Mas isso amor não é; isso é delírio,
Devaneio, ilusão, que se esvaece
Ao som final da orquestra, ao derradeiro

Clarão, que as luzes no morrer despedem:
Se outro nome lhe dão, se amor o chamam,
D’amor igual ninguém sucumbe à perda.
Amor é vida; é ter constantemente
Alma, sentidos, coração — abertos
Ao grande, ao belo; é ser capaz d’extremos,
D’altas virtudes, té capaz de crimes!
Compr’ender o infinito, a imensidade,
E a natureza e Deus; gostar dos campos,
D’aves, flores, murmúrios solitários;
Buscar tristeza, a soledade, o ermo,
E ter o coração em riso e festa;
E à branda festa, ao riso da nossa alma
Fontes de pranto intercalar sem custo;
Conhecer o prazer e a desventura
No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto
O ditoso, o misérrimo dos entes;
Isso é amor, e desse amor se morre!

Amar, e não saber, não ter coragem
Para dizer que amor que em nós sentimos;
Temer qu’olhos profanos nos devassem
O templo, onde a melhor porção da vida
Se concentra; onde avaros recatamos
Essa fonte de amor, esses tesouros
Inesgotáveis, d’ilusões floridas;
Sentir, sem que se veja, a quem se adora,
Compr’ender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,
Segui-la, sem poder fitar seus olhos,
Amá-la, sem ousar dizer que amamos,
E, temendo roçar os seus vestidos,
Arder por afogá-la em mil abraços:
Isso é amor, e desse amor se morre!

Se tal paixão porém enfim transborda,
Se tem na terra o galardão devido
Em recíproco afeto; e unidas, uma,
Dois seres, duas vidas se procuram,
Entendem-se, confundem-se e penetram
Juntas — em puro céu d’êxtases puros:
Se logo a mão do fado as torna estranhas,
Se os duplica e separa, quando unidos
A mesma vida circulava em ambos;

Que será do que fica, e do que longe
Serve às borrascas de ludíbrio e escárnio?
Pode o raio num píncaro caindo,
Torná-lo dois, e o mar correr entre ambos;
Pode rachar o tronco levantado
E dois cimos depois verem-se erguidos,
Sinais mostrando da aliança antiga;
Dois corações porém, que juntos batem,
Que juntos vivem, — se os separam, morrem;
Ou se entre o próprio estrago inda vegetam,
Se aparência de vida, em mal, conservam,
Ânsias cruas resumem do proscrito,
Que busca achar no berço a sepultura!

Esse, que sobrevive à própria ruína,
Ao seu viver do coração, — às gratas
Ilusões, quando em leito solitário,
Entre as sombras da noite, em larga insônia,
Devaneando, a futurar venturas,
Mostra-se e brinca a apetecida imagem;
Esse, que à dor tamanha não sucumbe,
Inveja a quem na sepultura encontra
Dos males seus o desejado termo!

                                                             Gonçalves Dias
(DIAS, Gonçalves. Poesia completa e prosa escolhida. Rio de Janeiro : José Aguilar, 1959.)

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Homem Nú

Hoje sinto-me nu
Despido de tudo e de todos
Apenas envolto por uma capa transparente
De fantasia e ilusão…

Sou um homem nu
Grão de areia numa praia banhada pelo mar
Gota de água num oceano de emoções.

Hoje sinto-me nu
Sinto um vazio em mim
Dor que aperta e gela o coração
Fogo que arde sem libertar chama.

Sou um homem nu
Sem brilho, sem charme, sem sedução…
Lágrima que jorra e morre no chão.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Futuros Amantes

Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios no ar

E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos

Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização

Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você


                                                                     Chico Buarque 

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Benvinda

Dono do abandono e da tristeza
Comunico oficialmente que há um lugar na minha mesa
Pode ser que você venha por mero favor,
ou venha coberta de amor
Seja lá como for, venha sorrindo
Ah, benvinda, benvinda, benvinda
Que o luar está chamando,
que os jardins estão florindo
Que eu estou sozinho
Cheio de anseio e de esperança,
comunico a toda gente
Que há lugar na minha dança
Pode ser que você venha morar por aqui,
ou venha pra se despedir
Não faz mal pode vir até mentindo
Ah, benvinda, benvinda, benvinda
Que o meu pinho está chorando,
que o meu samba está pedindo
Que eu estou sozinho
Vem iluminar meu quarto escuro,
vem entrando com o ar puro
Todo novo da manhã
Oh vem a minha estrela madrugada,
vem a minha namorada
Vem amada, vem urgente, vem irmã
Benvinda, benvinda, benvinda
Que essa aurora está custando,
que a cidade está dormindo
Que eu estou sozinho
Certo de estar perto da alegria,
comunico finalmente
Que há lugar na poesia
Pode ser que você tenha um carinho para dar,
ou venha pra se consolar
Mesmo assim pode entrar que é tempo ainda
Ah, benvinda, benvinda, benvinda
Ah, que bom que você veio,
e você chegou tão linda
Eu não cantei em vão
Benvinda, benvinda, benvinda. benvinda, benvinda


                                                                                Chico Buarque

terça-feira, 29 de maio de 2012

Matutando o que é você






















Em meu quarto eu estava tão demente
Numa tarde sem ter o que fazer
Em você eu pensei tão docemente
E sobre o que eu queria te dizer
Sobre como eu, matuto, poderia
Declarar de uma vez o que eu sentia
Dei por mim: só faltava o que e o quando
Pois o como seria versejando
Um rimar matutando o que é você
Você é caminhão de tripa assada
Com mais duas carretas de farinha
Você é acordar de manhãzinha
Escutando o cantar da passarada
Você é o amor de madrugada
Provocando a insônia dos amantes
Você é o fervor dos viajantes
A buscar o abraço da chegada
Você é comer queijo e mel de engenho
Sob a fresca sombrura do umbuzeiro
Você é projeção mental do cheiro
Da lembrança mais bela que eu tenho
Você é a alegria em cor brejeira
Morenando demais meus pensamentos
Você é a tristeza em meus lamentos
Como um pátio vazio ao fim da feira
Você é sussurrar bem de mansinho
Num ouvido palavras de amor
Você é o cantar do aboiador
Indicando à boiada o caminho
Você é meu calor no inverno frio
Chuvarada na terra esturricada
Saparia cantando na invernada
De paixão é sentir o arrepio
Você é querer bem de bem querente
Cafungado fungado no cangote
Você é a razão desse meu mote
És de mim tão igual e diferente
Você é a lapada com caldinho
Que eu tomo pensando em você
É paixão que acalento sem querer
Pois não queres seguir o meu caminho
Você é tudo aquilo que eu diria
E não disse talvez por esquecer
Você é meu espelho em outro ser
Espelhando de bom o que eu queria
Você é histeria e é prazer
Ao se ver à primeira vez o mar
Sua luz me inspira a rimar
Um rimar matutando o que é você.

                                                                      Cesar Feitoza