sexta-feira, 11 de maio de 2012

Para Giovanna

A Giovanna fez um ano.
Meu Deus, um ano!
Tempo curto,
Existência que engatinha.
Dizem que Giovanna significa "Deus é cheio de bênção".
Dizem...
Linda, abusada, rápida e graciosa.
Olhos brilhantes que descortinam o mundo devagarzinho.
Nada escapa.
Tão pequena, tão frágil, tão dona de si.
Tudo nela a denuncia:
As feições de princesa altiva da mãe,
A força apaixonada do pai,
O jeito de flor da tia,
O entusiasmo amoroso do padrinho,
A beleza discreta da madrinha
E o sorriso maroto do avô.
Está tudo ali estampado no rosto da menina
Que brinca e se assusta com a boneca em forma de bruxa.
É claro que será feliz,
Será pessoa de bem.
Mas o que eu desejo de verdade,
Se me permitem,
É que ela seja consistente e doce como mel,
Que seja corajosa, forte, audaciosa, vaidosa,
Às vezes dura e, por isso mesmo, livre como a avó paterna.
Que seja mulher de verdade, como diz a música.
Se mel Giovanna for, a vida lhe sorrirá todos os dias.
Saudemos Giovanna e todo o seu séquito!
Se não formos tão felizes, ela será por nós.
Axé, Giovanna, axé!!!
 

                                                                                             Carlos Villarruel (24 de janeiro de 2012)

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Pretinha

Pretinha, menina feliz

Que me sorri

Que conversa comigo

Que ouve meus ais

Que brinca comigo

Capuchetas no ar

Pula-carniça, amarelinha,

Bolinhas de gude, esconde-esconde

Passa anel, jogo das pedrinhas

Tá quente, tá frio



Pretinha, menina feliz


Que canta comigo

Que me torna menino

Que me lembra que sou homem grande

Que me enche de esperança

Que me faz acreditar nos contos de fada

Em Papai Noel

No coelhinho da Páscoa

No amor entre os homens

Que me diz todos os dias

Com o seu bocão sorridente

Que Deus nos protege sempre

Apesar dos nossos vacilos



Pretinha, menina retinta


Que senta comigo na varanda

Para ver os balões coloridos

Que abrem caminho no céu

"Num pode soltá balão, é perigoso", diz pretinha

Tão cautelosa é pretinha

Ela cuida de mim, dos meus sonhos

Das minhas esperanças

"Ah, pretinha, na vida tem tanta coisa perigosa, né?"

"Isso é verdade..."

Pretinha menina retinta é feliz

E gosta de mim

Somos tão felizes...

"Tá na hora de dormir, pretinha"

"É, mas antes precisamos rezar"



Pretinha menina retinta feliz


Eu e pretinha... Assim

                                                                   Carlos Villarruel
(13.2.2012)

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Morrer para dormir

                                                                                                                            Pra Marcelo Fromer

Ah! Essa dor lancinante

Essa "coisa" que atordoa a alma

E nos desconcerta

Mas que acalenta

Como uma singela canção de ninar.



Ah! Esses nossos sonhos


Que vão e se perdem pelo infinito

No horizonte inexorável

Daquilo que chamamos existência.



Ah! Os livros que não leremos


Os discos que jamais ouviremos

As bocas que esperarão inutilmente nosso beijo mais apaixonado

Perdemo-nos nas lembranças

Em falsas fotografias

Num intricado jogo de desejos vãos.



Ah! Falar e ocultar nossos amores


(Como era bom contê-los! Tão platônicos!)

Irresistíveis amores

Com suas dores exatas

Nossas perdas inevitáveis

Imponderáveis ilusões.



Ah! Como tudo dói


Profundamente

Num abismo

Num resumo patético de nossa vida

Dói porque é assim

Nada se pode fazer

Há uma resignação, finalmente.



Ah! Como é assustadoramente lógico


Como é tão indignamente racional

Dói

Numa sofreguidão sem fim

Na constatação "irracional"

De que é "só" isso

Mais nada.



Refugiamo-nos nas lembranças


Em sonhos à toa

Em recordações sem música

Sem volta

Na impossibilidade do reparo

Sem a chance para o arrependimento

Sem poder acordar

Como um vazio que fica

E que sempre esteve ali e aqui.



Ah! Como tudo é como é


Tão assim

Tão nada

Tão simplesmente porque é

Tão claro

Insuportavelmente óbvio.



Ah! O que nos resta então?


Talvez Chet Baker

Murmurando

Na dor intrínseca

Na ferida escancarada

Na saudade doída

Somewhere over the rainbow...



Ah! Quem sabe...




                                                         Carlos Villarruel (escrito em 13.6.2001; revisto em 20.11.2011)

terça-feira, 8 de maio de 2012

Destino

Dito, escrito, irreversível!



Timão que conduz a vida,


Que guia o olhar para o horizonte.

Aurora e turbilhão,

Medo e esperança,

Saudade e morte,

Certezas e solidão.



Dito, escrito, irreversível!




Madrugada embriagada,


Olhar inocente,

Carne que pulsa e apodrece,

Insanos e contidos desejos,

Sorte e sangue.



Dito, escrito, irreversível!




Paixão lancinante,


Amor quietinho,

Braços febris,

Acenos ligeiros,

Solitude inexorável.



Dito, escrito, irreversível!




Começo, meio e ponto final,


Luzes acesas,

Cortinas cerradas,

Imagens mudas,

Reflexo feliz.



Assim, sem tirar nem pôr:


Dito, escrito, irreversível!

                                                                                                         Carlos Villarruel (6.5.2012)

domingo, 29 de abril de 2012

As Promessas de um Rosto




 


Amo, ó pálida beleza, os teus cenhos curvados
Que dão às trevas todo o império;
Teus olhos, embora negros, me inspiram cuidados
Que não têm nada de funéreos.



Teus olhos, que imitam a negrura dos cabelos
Da tua longa crina elástica,
Teus olhos langues me dizem:
"Amante, se o apelo




Queres seguir da musa plástica
Que infundimos no teu ser, ou tudo que contigo
Em matéria de gosto trazes,
Poderás ver, desde as nádegas até o umbigo,
Que nós te fomos bem verazes;


Encontrarás, sobre dois belos seios pontudos,
Dois grandes medalhões de bronze,
E sob o ventre liso, macio como veludo,
Amorenado como bronze,

Um rico tosão que à tua enorme cabeleira
Copia no negrume e na espessura;
De tão sedoso e encrespado, ele te iguala inteira,
Noite sem astros, Noite escura!"




Baudelaire
Pintura a óleo de Romeo Zanchett

sábado, 28 de abril de 2012

Terceiro Soneto de "Les Stupra"



Franzida e obscura como um ilhós violeta,
Ela respira, humilde, entre a relva rociada
Inda do amor que desce a branda rampa das
Alvas nádegas até o coração da  greta.
.

Filamento iguais a lágrimas de leite
Choraram sob o vento atroz que os arrecada
E os impe´le através de marnas arruivadas
Até perderem-se na fenda dos deleites.
.

Beijando-lhe a ventosa, o meu
sonho o freqüenta.
A minha alma, do coito material ciumenta, 
Qual lacrimal e ninho de soluços usa-a.


É a oliva esvaída e é a flauta agreste.
O tubo pelo qual desce a amêndoa celeste,
Feminil Canaã em seus rocios reclusa. 
Rimbaud
Obra Ilustrativa - Mulher no banho - Óleo de Romeo Zanchett

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Alma minha gentil, que te partiste



Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etério, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te;

Roga a Deus que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

Luis Vaz de Camões