A sombra imensa, a noite infinita enche o vale… E lá no fundo vem a voz Humilde e lamentosa Dos pássaros da treva. Em nós, - Em noss’alma criminosa, O pavor se insinua…
Um carneiro bale. Ouvem-se pios funerais. Um como grande e doloroso arquejo Corta a amplidão que a amplidão continua… E cadentes, metálicos, pontuais, Os tanoeiros do brejo, - Os vigias da noite silenciosa, Malham nos aguaçais.
Pouco a pouco, porém, a muralha de treva Vai perdendo a espessura, e em breve se adelgaça Como um diáfano crepe, atrás do qual se eleve A sombria massa Das serranias.
O plenilúnio vai romper…Já da penumbra Lentamente reslumbra A paisagem de grandes árvores dormentes. E cambiantes sutis, tonalidades fugidias, Tintas deliquescentes Mancham para o levante as nuvens langorosas.
Enfim, cheia, serena, pura, Como uma hóstia de luz erguida no horizonte, fazendo levantar a fronte Dos poetas e das almas amorosas, Dissipando o temor nas consciências medrosas E frustrando a emboscada a espiar na noite escura, - A Lua Assoma à crista da montanha.
Em sua luz se banha A solidão cheia de vozes que segredam… Em voluptuoso espreguiçar de forma nua As névoas enveredam No vale. São como alvas, longas charpas Suspensas no ar ao longo das escarpas. Lembram os rebanhos de carneiros Quando, fugindo ao sol a pino, Buscam oitões, adros hospitaleiros E lá quedam tranqüilos ruminando… Assim a névoa azul paira sonhando… As estrelas sorriem de escutar As baladas atrozes Dos sapos. E o luar úmido…fino… Amávico…tutelar… Anima e transfigura a solidão cheia de vozes…
Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar. Clarice Lispector
Teço, reteço, entristeço Bordo, rebordo, enlouqueço Traço, desfaço, esmoreço Ponho, reponho, componho, sempre um recomeço Linha a linha, Graveto por graveto.
Espero... Ah, esta tempestade que não chega, Que me evita, Que não me contém, Que... Ah, esta dor lancinante, silenciosa, profunda, Esta melancolia, estes desejos, A tua boca que não mordisca meu pescoço... ainda.
Ah, teus olhos que não me veem, Que não vêm, Teus braços que não me assaltam, Teu fogo que não me consome... ainda.
Ah, este vinho que não me embriaga, Esta brisa que não me acalma Este poema que não encontro... ainda.
Aconchego-me, enquanto te espero, na mansidão: Teço, reteço, entristeço Bordo, rebordo, enlouqueço Traço, desfaço, esmoreço Ponho, reponho, componho, sempre um recomeço Linha a linha, Graveto por graveto.
Ah, esta vontade de voar, Ir pro meu céu, Pro teu inferno, Pro nosso paraíso.
Ainda não, Ainda não é, Por enquanto, espero-te. Calma, paciente, silenciosa, Louca, serena, saudosa.
Quando a desesperança me aflige, Debruço-me, enquanto te espero, na mansidão: Teço, reteço, entristeço Bordo, rebordo, enlouqueço Traço, desfaço, esmoreço Ponho, reponho, componho, sempre um recomeço Linha a linha, Graveto por graveto.
Desenho castelos, Assovio baixinho uma canção, Faço um café, Arrumo a cama, Escolho a louça, os talheres e as flores, Ponho a mesa, Sento-me na varanda com a cuia ainda quente.
Enquanto te espero, Refresco-me na mansidão: Teço, reteço, entristeço Bordo, rebordo, enlouqueço Traço, desfaço, esmoreço Ponho, reponho, componho, sempre um recomeço Linha a linha, Graveto por graveto. Sou curruíra, Às vezes, mansa, Às vezes, tonta, Mansa e tonta de saudades. Não demore, meu amor!!! Carlos Villarruel (18.6.2012; concluído em 20.6.2012)
Vamos, não chores. A infância está perdida. A mocidade está perdida. Mas a vida não se perdeu. O primeiro amor passou. O segundo amor passou. O terceiro amor passou. Mas o coração continua. Perdeste o melhor amigo. Não tentaste qualquer viagem. Não possuis carro, navio, terra. Mas tens um cão. Algumas palavras duras, em voz mansa, te golpearam. Nunca, nunca cicatrizam. Mas, e o humour? A injustiça não se resolve. À sombra do mundo errado murmuraste um protesto tímido. Mas virão outros. Tudo somado, devias precipitar-te, de vez, nas águas. Estás nu na areia, no vento… Dorme, meu filho.
O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar. Carlos Drumond de Andrade ( livro Amar se aprende amando, 22a. edição, Rio de Janeiro: Record, 1999. p. 19)